#26 Viajar e atravessar
viagens como objetos transicionais
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Silvia Kovalechuck
Pra ouvir enquanto lê essa newsletter
O contrário de morrer não é viver. O contrário de morrer é nascer. A vida é o tempo que passamos entre o nascer e o morrer. Um intervalo.”
Dra. Ana Claudia Arantes
Olá, Viajante!
Inspirada pelo contato com um artigo da psicóloga Manuella Santos, que faz paralelos entre o conceito de transicionalidade de Winnicott e suas viagens, te convido a pensar as viagens como “objetos”, experiências que trazemos conosco nos permitindo habitar nesse intervalo chamado vida, rumo ao nosso crescimento.
Nesta edição, sugiro olhar para as travessias como ritos que nos permitem soltar quem nos disseram para ser e abraçar quem a gente pode e quer se tornar - e como as viagens nos acompanham, transitam conosco nessas jornadas.
Mergulha comigo?
Sonhar a Viagem
Para atravessar o mundo, você primeiro precisa atravessar a si mesma.”
Clarice Lispector
As viagens nasceram em mim bem antes de eu ter o primeiro passaporte.
Foi nas histórias da minha avó, nas revistas da National Geografic que meus pais tinham em casa; nos livros, nas canções, nos idiomas que sempre tive facilidade de aprender. Na curiosidade aflorada que sempre guiou meus passos.
Por isso me identifiquei com a ideia da psicóloga Manuella Santos: viagem enquanto um objeto que nos acompanha nas travessias e “fica depois”, que nos ensina que viajar é habitar esse território fértil onde a nossa realidade interna e o mundo externo se encontram para criar algo novo.
Quando você planeja um destino, você não está apenas escolhendo coordenadas geográficas; você está escolhendo o “chão” que vai te segurar enquanto você se apresenta ao desconhecido. Sonhar é o início da travessia, o momento em que a alma começa a se expandir antes mesmo do corpo embarcar.
Ela diz:
“a mala, o passaporte ou até mesmo o destino se tornam marcos afetivos que nos acompanham no movimento de deixar o familiar para conhecer o novo. Nesse deslocamento, a viagem inaugura um espaço transicional — esse “entre”, onde podemos criar, brincar e nos reinventar, transitando entre quem éramos ao partir e quais novas paisagens internas ganharemos no nosso retorno”.
E você? Onde esse entre habita nos seus sonhos?
Preparar a bagagem
Não se nasce mulher, torna-se mulher."
Simone de Beauvoir
Arrumar a mala para um rito de amadurecimento exige um desapego essencial.
Quais papéis você tem carregado por obrigação?
O que você precisa deixar para trás para se lançar numa travessia rumo ao desconhecido?
Preparar a bagagem é um exercício de autonomia. É decidir o que fica no porto: as expectativas alheias, os “pitacos” sobre sua vida e os roteiros que não foram escritos por você.
Viajar leve é, antes de tudo, permitir-se brincar com novas identidades e possibilidades de ser.
Você se dá essa permissão?
Pé na estrada
O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
Guimarães Rosa
Nenhuma travessia nos deixa imunes: somos atravessadas por cheiros de mercados, pelo sotaque de estranhos que se tornam amigos e pelo silêncio das paisagens que nos deslocam.
Viajar, é experimentar e (re)conhecer o mundo interno e surpreender-se pelo encontro. Encontros esses que ocorrem de diversas formas — nos olhares, nos silêncios, nos gestos simples que revelam mundos inteiros; nos cheiros e sabores que criam memórias e guardam presenças; no contato com o outro e com culturas distintas; em paisagens que nos deslocam; em pessoas que nos inspiram; em experiências que nos atravessam e, ao mesmo tempo, nos abrigam, mas também com partes de nós mesmos que só emergem diante deste novo que nos é apresentado.
Afetamos e somos afetados, por onde passamos, e trazemos esses afetos vida afora.
O roteiro que sugiro para se afetar é bem simples, fácil de chegar, não exige passaporte e ainda tem voo direto de Curitiba. Já adivinhou qual é?
Chi Chi Le le - CHILE
O destino da nossa viagem é o Deserto do Atacama, um lugar muito poderoso para processos de cura, autoconhecimento e travessias.
Aqui teremos experiências transformadoras como:
Meditação ao nascer do sol no deserto.
Vivenciar o amanhecer no deserto cria um momento simbólico de renascimento pessoal. É um convite para definir novas intenções para a vida.
Locais como Vale da Lua e Laguna Miscanti são ideais.
Observar as estrelas em um dos céus mais limpos do mundo torna ainda mais evidente a noção de passagem e contemplação da vida.
Tour astronômico guiado
Que nos permite refletir e ganhar perspectiva sobre nosso lugar neste vasto universo.
Banhos em águas termais naturais no Termas de Puritama
Caminhadas contemplativas em paisagens surreais.
No deserto, não existem distrações.
Existe apenas silêncio, espaço e tempo para ouvir a si mesma.
O cenário ideal para quem quer habitar o entre com consciência, autonomia e liberdade.
Para saber mais detalhes desta incrível jornada transformadora, fale comigo!
Meu movimento pelo mundo
Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça." Cora Coralina
Vivo no entre, viajando e me conectando com o mundo, com as pessoas mas, sobretudo, comigo mesma.
A Austrália foi a mais recente virada de chave na minha vida!
Novamente ir sozinha para um país e se virar com emprego e moradia e ainda administrar uma empresa no fuso de 13h foi o maior desafio da minha vida. A minha força e resiliência aumentaram ainda mais com todas as situações difíceis que tive que enfrentar. Foi a realização de um sonho ter morado na Austrália, um país conectado com a natureza assim como eu. Lá tive a oportunidade de realizar meu sonho de criança que era trabalhar nas Nações Unidas. Trabalhei na Copa do Mundo Feminina e em grandes shows como do Paul McCartney e Foo Fighters. Tive a chance de conversar com a primeira-ministra. E conhecer e conviver com aborígenes e visitar Uluru, um local tão sagrado e energético. E ainda consegui um dos graus mais elevados de fluência da língua inglesa, o C1 Cambridge Certificate: diferente do IELTS que precisa renovar, o Cambridge é eterno e com este nível pode-se trabalhar nas embaixadas e na ONU.
Na Tunísia, pude adquirir o superpoder da Tolerância;
Uyuni me trouxe o poder da abertura e
Londres… Ah Londres, me trouxe outra Sílvia!
Sim, existe uma Silvia antes e outra depois de Londres. Foi a realização do meu 1° grande sonho de morar fora do país e aprender a falar fluentemente o inglês. Foi onde iniciei a minha carreira internacional no Turismo. Aprendi a conviver com todas as culturas do mundo (olha a tolerância novamente nessa travessia!), conheci pessoas de países que nem sabia que existiam. Aprendi resiliência, persistência, vivi em situações hostis e desafiadoras (não é fácil ir sozinha para um país e se virar com emprego, moradia…). E tive um belo modelo de educação, que sempre comigo em minha vida. Isso me tornou a pessoa destemida que sou hoje.
Tudo o que desenvolvi lá me ajudou a resolver todos os problemas do dia-a-dia frente a uma agência de turismo.
Porque viajar é um entre que não acaba: minhas viagens sempre ficam em mim e no que faço!
Sou muito feliz e grata pelas oportunidades de atravessar a vida dessa forma, viajante.
Uma viagem que reverbera
Viajar não é apenas mudar de lugar; é mudar o destino do nosso próprio ser.”
Mia Couto
Para mim, viajar sempre foi sobre habitar esse “entre”: esse intervalo onde deixava de ser quem era e descobria quem poderia me tornar.
Nesta edição, pudemos olhar a das lentes da psicologia de Winnicott, que traz em seu conceito de transicionalidade esse vir a ser que o entre nos proporcionar. Viajar é esse exercício.
Quem me apoiou nessa travessia foi a psicóloga Manuella Santos, que escreveu o capítulo “Travessias e atravessamentos - a viagem como retorno a si: apontamentos à luz da transicionalidade”. - Acompanhe o trabalho dela também no Instagram.
Ele compõe a obra recém-lançada: Tempo e Psicanálises Contemporâneas: Teoria e Clínica (Janeiro, 2026).
Um livro para quem, como nós, entende que a mala e o passaporte são, na verdade, marcos afetivos que nos preparam para o maior encontro de todos: o encontro com nós mesmas.
Que a sua próxima travessia deixe marcas vivas na sua história.
Um abraço carinhoso,
Silvia Kovalechuck



